
Ele entra no ônibus que leva do embarque ao avião. Fica bem na minha frente. Me olha. Te olho.
- Que cara charmoso! Senta do meu lado, senta do meu lado, senta do meu lado! (Eh, amô, eu pensei isso, não te contei!) E o que acontece?
Não, ele não senta do meu lado.
Uma moça, pouco mais idade que eu, babá, ia descer em Petrolina. Já conformada porque tudo comigo acontece ao contrário sempre mesmo, ligo meu mp3, e já me encolho naquela poltrona mini mas que miraculosamente eu consigo me acomodar, e me preparo pras 5 horas de vôo.
Passa um tempo, sinto um carinho suave no meu braço, aquilo me aperta o peito e me sai um sorriso sacana. É ELE. Que seja ELE. Era ele.
A mão dele vinha da poltrona 11 A, eu na 10 A, uma mão sorrateira entre a poltrona e a janela acariciava meu braço. Coloco ou não coloco a ponta dos meus dedos? E agora? E se ele me achar fácil? Ah, você nunca mais verá esse cara sua retardada, é só um carinho, vai...
Facilito a mão. Ponta dos dedos, as mãos dele se animam e se aninham. Dedos, mãos, braços, nuca, nessa ordem.
A mão dele já passava por minha nuca e nenhuma palavra. A mão nos meus lábios, e nenhuma palavra. Os dedos dentro da minha boca, e nenhuma palavra. A mão dele no meu colo e nenhuma palavra. Também não precisava. Nossos corpos se entendiam. O tesão vinha e eu o prendia roçando as coxas. O avião chega em Salvador. Ele me escreve um bilhete com seu telefone e pede o meu.
Droga, droga, droga, esqueci o meu número! De novo, pqp! Eu sou retardada! Ah, mas era pra ser só isso mesmo, afinal, eu só deixei os dedos dele passarem entre meus lábios porque nunca nos veremos mesmo..
Mais um bilhete:

Tentei negar, juro. Afinal, eu só deixei os dedos dele passarem entre meus lábios porque nunca nos veremos mesmo.
E eu respondo que não dá, o piloto mandou permanecermos sentados nos nossos lugares (dooooida pra ir) mas na escola do cudocismo, temos que dizer não três vezes.
Ele fala baixinho alguma coisa engraçada e charmosa, e eu vou. Sento do seu lado e vejo um tal livro meio que auto ajuda, mas que ele jurou não ser. Gabriela, se ferrou, vai ter que ir pelo menos até Recife com esse cara maluco.
15 minutos de conversa e conheço um cara lindo, cheiroso, fascinante e que me agarra num beijo tão gostoso, que me desculpem o trocadilho infame: me deixou nas nuvens.
E nessa de “afinal, eu só deixei os dedos dele passarem entre meus lábios porque nunca nos veremos mesmo” que hoje faz 1 mês que esse cara entrou na minha vida, e hoje rezo para que não saia nunca mais. Afinal, eu só deixei os dedos dele passarem entre meus lábios, não tinha autorizado ele tocar a minha alma e me fazer romper com o mundo e queimar os meus navios.
